Quem não assistiu a “Pálido Colosso”, espetáculo mais recente da Cia do Feijão, tem até 02 março para conferir. Depois, dando seguimento à mostra de repertório (uma das atividades que marca as comemorações dos dez anos do grupo), os Feijões apresentarão a peça “Nonada”. Março também é mês de rever o espetáculo de rua “Reis de Fumaça”, que será apresentado na Praça da República.
“Pálido Colosso” propõe um repensar sobre as escolhas feitas por cada um de nós no correr dessa história.Numa espécie de cabaré “degenerado”, quadros de diversos gêneros abordam fatos da ditadura aos dias de hoje: regime de exceção, futebol, abertura política, presidentes do país neste período, boas e nem tão boas participações de artistas nestes processos.
Ao mesmo tempo em que a história política do país é abordada em esfera abrangente, memórias pessoais de cada um dos integrantes da companhia pontuam e entremeiam o espetáculo, tentando apreender o quanto as brincadeiras de criança, por exemplo, moldaram os adultos em que se transformaram. Apontando sempre para a alienação proporcionada pelo sistema e para a perda da inocência no decorrer de todo o processo político brasileiro desde os anos 60.
O processo de criação deste espetáculo é resultante do projeto de pesquisa “Por que a esquerda se endireita – um estudo da alma brasileira contemporânea”, contemplado pelo Programa de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo. Os experimentos cênicos foram basicamente divididos em três frentes: memória pessoal dos atores, releitura de textos teatrais representativos da época em estudo e um diversificado conjunto de materiais que incluem conteúdos jornalísticos, obras literárias e musicais, além de ensaios sobre a realidade brasileira contemporânea, sempre dentro de uma abordagem que se poderia chamar de “desconstrutiva”.
Dada a condição de todos os integrantes da companhia de “personagens” brasileiros vivos da época em estudo, ganhou relevância durante o processo de criação a exploração de memórias pessoais que de algum modo refletissem cada momento histórico abordado. Com idades que variam de 32 a 54 anos, os atores resgataram memórias significativas de 3 períodos básicos de suas vidas – infância/adolescência, idade adulta e momento presente – e juntamente com os diretores-dramaturgos teceram relações com fatos políticos que ocorriam em cada momento.
Buscou-se com isto uma postura crítica ao movimento de resistência de esquerda – aí incluídos os próprios membros da companhia – frente ao momento repressor por que passamos sobretudo após o golpe de 64, mas cujas raízes remontam ao período colonial e ao processo de formação do Brasil como nação moderna. Para concluir que ainda e sempre este país “quase é”, nunca conseguindo tornar-se igualitário e justo e acabando por vitimar mesmo as melhores intenções.
Como materiais suplementares, foram essenciais os estudos realizados sobre obras biográficas de personagens políticos nacionais, entrevistas e consulta à obra de pensadores brasileiros contemporâneos como Roberto Scwharz, Paulo Arantes, José Antônio Pasta Jr. e Iná Camargo Costa, material jornalístico contemporâneo de cobertura geral e política, estruturas e conteúdos de meios de difusão do século passado e a extensa musicografia brasileira das últimas quatro décadas.