Trecho da crítica feita por Juliene Codognotto sobre o espetáculo “Mire Veja” para a Revista Bacante:
“O capítulo 24 – Uma estante – do livro eles eram muitos cavalos não entrou na adaptação da Cia do Feijão. Nem o 25. Tampouco a frase que dá início ao 55. Muitos outros, entre os 69 e a página-final-sem-capítulo-a-que-pertencer, ficaram de fora. No entanto, sendo o próprio livro um apanhado de recortes(,) de histórias(,) de pessoas(,) da cidade(,) de São Paulo, era de se esperar que ao trazer para a cena as 150 páginas escritas pelo mineiro (!) Luiz Ruffato, a Cia do Feijão fizesse, ela também, suas escolhas.
Escolhidas e reencaixadas, as histórias vão se desenhando no centro de um palco em formato de arena e cinco atores se transformam nas 10.995.082 pessoa que vivem em São Paulo (segundo o site da prefeitura), sem contar as que só passam por aqui. Trazem os corpos, os sapatos, os sons de uma cidade que provoca sentimentos contraditórios e que tem o movimento como característica indiscutível, ora terrível, ora maravilhosa.
Movimentos e sons ditam o ritmo de uma encenação que não apresenta criações mirabolantes, cenários de um milhão de dólares ou rituais de 12 horas, mas consegue transformar em imagens o texto complexo de Ruffato, em que o conteúdo caminha intimamente ligado à forma e a linearidade é completamente deixada de lado. Apresentar os sapatos dos personagens como metonímia de vidas tão diversas e ao mesmo tempo tão iguais é uma das soluções encontradas no livro e, nesse caso, multiplicada na peça, ganhando ainda mais intensidade e poesia.
É preciso considerar que, talvez, a referência às ruas paulistanas seja uma limitação na fruição de quem não mora em São Paulo ou de quem mora, mas não vive. Por mim, tudo bem. Não só porque eu vivo em São Paulo – nessa São Paulo de sons, movimentos, pobrezas e belezas – mas também porque na metrópole estão aumentados como numa lupa os elementos da essência humana e do que é, hoje, nossa sociedade do medo. Unir o capítulo em que Ruffato descreve a cena de um rato mordiscando a pele de um bebê que dorme na rua às considerações finais do livro que revelam o medo de um casal em abrir a porta de casa após ouvir um gemido
(”_ Não vamos ajudar?
_ Ficou louca? (…) Melhor dormir… Vai… (…) Amanhã a gente fica sabendo…”)
foi uma das escolhas mais reveladoras da Cia do Feijão. E não revela somente os paulistanos, mas os medrosos todos. Todos os que esperamos pra ler as tragédias nos jornais. Amanhã.
90% do caminho andado ao encontrar o texto.”
* ESPIE ESTE TEXTO COMPLETO E OUTROS SOBRE A CIA DO FEIJÃO NA BACANTE: